(by Marina Vargas)
“Tinha uma pessoa. Eu gostava dela como nunca mais gostei de ninguém. Era linda, sim, mas isso era o que menos me chamava atenção. Seu perfume ainda me chega com o vento, como se ela nunca tivesse partido… e as vezes eu realmente acredito que ela está por perto. Ela tinha um jeito meio rebelde, de quem quer mudar o mundo, de quem ainda tem fé na humanidade. Por anos achei que veria seu rosto entre os das moças presas na luta armada, não vi. Alias, nunca mais a vi… hoje, o encanto que lhe era próprio talvez não exista, talvez tenha sido levado por um outro alguém, alguém que magoou e não deu valor àquela menina que desejei ao meu lado durante tantos anos. Eu a teria tratado como merecia, como a menina que era e como a mulher que seria, com todo o carinho que um homem já soube dedicar a uma mulher.
Eu não quero que pensem que digo isso a toa, que nem ao menos tentei… eu a desejei de verdade e usei de todos os meios que possuia para conquista-la. Ainda penso que ela chegou a gostar de mim um dia mas alguma coisa deu errada no meio do caminho. Ela falava sobre não querer se envolver e dava risada do que eu dizia, mas não ria de deboche, ria como quem acha bonito mas não dá credibilidade ao que lhe é dito. A menina dos meus olhos parecia não ter os mesmos sonhos que eu, e não tinha mesmo: ela queria ser livre e sem compromisso como os jovens são, ela dizia não ter tempo a perder. Um dia me disse que tinha conhecido alguém, um menino tão jovem e tão livre e sem compromisso quanto ela… e que gostava dele. Gostava dele da mesma forma que eu gostava dela.
Minha menina se foi, se foi antes de ser minha, antes de ser mulher comigo, me trocou por alguém que talvez a tenha tratado como qualquer outra. Mas eu realmente espero que não, espero que a tenham tratado como merecia e, assim, tenha amadurecido sem perder os ares de encanto e beleza que a tornavam única. Penso isso porque ainda tenho esperanças de sentir aquele perfume novamente e que não seja por ilusão, quero senti-lo e descobrir que sua dona é a mulher que um dia amei, e eu a reconheceria, eu reconheceria aqueles olhos com brilho de revolução em qualquer lugar.”









